Diferente de outras idealizações de sociedades humanas, como o capitalismo ou o comunismo, quando se trata do anarquismo, o movimento político e o objetivo dele não são a mesma coisa, existe diferença entre a anarquia e o anarquismo.

O capitalismo na verdade foi gerado a partir da idealização chamada “liberalismo”, mas hoje podemos definir o capitalismo como uma sociedade onde a produção se fundamenta na relação capital-trabalho. Assim podemos falar de capitalismo de Estado, mas não podemos falar de capitalismo escravista, uma vez que a relação senhor-escravo é distinta.

O socialismo por sua vez está presente na sociedade onde os meios de produção estão socializados, isso implica na ausência de relação capital-trabalho, da substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva (entre outras possibilidades) e numa reorganização da vida com base na divisão social do trabalho e seus frutos. Toscamente muita gente tenta igualar “socializar” com “estatizar”, o que não procede de forma alguma.

O anarquismo, seguindo essa lógica, seria a sociedade onde está presente a anarquia, ou seja, a ausência de governo, porém isso gera uma interpretação vazia e redundante. Isso porque a anarquia pode, e deve, ser definida em termos positivos e amplos, que ultrapassam as relações humanas, as relações de produção.

A anarquia existe, não é uma criação humana, e os humanos não podem impedir que uma hora ou outra a vida retorne para ela. A anarquia é o estado natural, na qual todos os seres estão plenamente capazes de seus potenciais, onde não existe um comando, um governo, que limite, ou mesmo, defina o destino de cada ser.

Por sua vez o anarquismo é um fenômeno obviamente humano. Eu defino, em poucas palavras, o anarquismo assim: “É o conjunto de teorias e práticas que visam a construção da sociedade anarquista permanente”. A sociedade anarquista permanente é mais próximo que podemos almejar da anarquia, qualquer coisa além disso está fora de capacidade de ser planejada enquanto realização coletiva da humanidade.

Logo, o anarquismo é um movimento político, muitas pessoas fracionam a anarquia, para então focarem numa meta, na retirada de um dos obstáculos à anarquia. O mais óbvio, e que originou o movimento, é o conjunto de instituições de governo de massas, chamado de Estado. Os anarquistas também combatem o capitalismo, devido a suas limitantes bases, a propriedade privada, que priva o livre acesso aos meios de produção, a humilhante relação capital-trabalho, que nos reduz a engrenagens descartáveis do sistema, e o mercado, que converte em valores de troca tudo o que toca.

Muitos anarquistas incluem uma longa lista de limitantes a serem derrubados, em especial as opressões humanas, como o machismo, racismo, homofobia, entre tantas. Mais raro é que se incluam nessa lista as limitações que nós sofremos pelos nossos próprios modos de vida, e as limitações que impomos aos demais seres, que numa perspectiva anarquista ampla, não são menos relevantes que os conflitos internos de nossa espécie.

O veganismo, a ecologia profunda, a crítica à civilização e o primitivismo, geram importantes contribuições para os anarquistas se localizarem enquanto espécie humana neste planeta. Nada fora das concepções religiosas justifica nosso domínio sobre os demais seres. A anarquia original da vida foi brutalmente mutilada quando iniciamos a domesticação, e com a civilização nossa arrogância em relação ao mundo “selvagem”, fora de nossas cercas, se consolidou.

Agora vou retornar para explicar melhor alguns pontos. A natureza é anárquica, não anarquista, pois ela nunca teve a intenção de assim ser, ela apenas é. Ela possui dinâmicas próprias que chamamos de leis da natureza. Bakunin já exaltava às descobertas dessas leis pois elas retiravam a intencionalidade do mundo natural. Bakunin acreditava que o próximo passo seria a descoberta das leis da natureza humana, e que isso iria revolucionar a humanidade num futuro anarquista. Ele estava certo, muitas dessas dinâmicas internas humanas foram descobertas, e usadas para os piores motivos, como a publicidade. Mas nós também descobrimos que nossa natureza é nada menos que a de grandes primatas caçadores coletores dos trópicos, e nosso sofrimento psíquico está em grande parte ligado à “perda” de nosso habitat e nicho original.

Muitos argumentos podem ser levantados para dizer que a natureza não é anárquica, em especial a existência de hierarquias. Ocorre que não havendo intencionalidade, essas hierarquias surgem simplesmente por que foram de maior sucesso evolutivo. Há quem diga que essas hierarquias naturais existem em humanos, e por isso estamos impedidos de viver a anarquia desde o nascimento. É o caso da gravidez das fêmeas humanas. Seria um fardo biológico que empurra elas para uma posição de inferioridade. Ora, as mamíferas têm úteros pois a melhor proteção dos filhotes, em relação a ovos, garantiu o sucesso de suas espécies. Entre hienas, mamíferas, qualquer fêmea é superior a qualquer macho. Entre ratos-toupeira-pelados, também mamíferos, existe um casal dominante e todos os demais são como operários de uma colônia, tal qual formigas. As hierarquias criadas nas sociedades humanas não tem respaldo numa natureza condenatória, podemos ver isso bem ao constatar que os primatas mais próximos a nós não reproduzem essas opressões em suas sociedades.

O ser humano ter sido gerado na anarquia da natureza, significa que a anarquia também está na natureza humana, pois como qualquer outro ser natural, nós não existimos para ter nossas capacidades limitadas, mas para a realização de todo o nosso potencial. Com isso não quero fazer coro às várias declarações de famosos anarquistas sobre a rebeldia estar na natureza humana, sobre a revolta, sobre a anarquia existir como um sentimento. Separados de seu meio natural, os humanos não têm um instinto de anarquia, eles apenas sofrem, nunca houve situação para nos programar geneticamente um instinto de retorno ao “selvagem”, pois antes de domesticarmos a superfície do planeta, não existia a saída do “selvagem”.

Ocorre que nós saímos desse mundo “selvagem”. Isso não ocorreu por qualquer modificação genética, mas por uma mudança de paradigma. Em algum momento grupos de caçadores coletores decidiram ser mais seguro explorar intensivamente uma ou poucas fontes de alimento, e assegurar essas fontes através de uma população fixa e numericamente superior aos demais grupos caçadores, do que se manter afastado dos demais grupos, em pequenas populações, garantindo assim máxima segurança alimentar, uma dieta super variada, e uma plena relação com o mundo natural. Não muito depois disso o manejo dos recursos levou à agricultura, à pecuária e à variadas criações de peixes e frutos do mar. Como o cão foi domesticado antes, certamente por caçadores nômades, fica o debate, que não entrarei, sobre o que surgiu primeiro e levou ao que, domesticação, sedentarismo ou relações de dominação entre os próprios humanos.

Especialmente após a sedentarização, e estabelecimento dos primeiros sistemas integrados de agricultura e pastoreio, a divisão entre o mundo doméstico e o selvagem se intensificou. Com a civilização o “outro” se tornou inconciliável inimigo, e o ideal de controle generalizado de tudo o que existe, o autoritarismo, triunfou. Muitos povos primitivos, tal como os antigos germânicos, distinguiam claramente, em sua visão de mundo, aquilo que estava dentro de suas cercas, pessoas, plantações e criações, daquilo que estava fora, outras pessoas, animais e plantas selvagens, mantendo um temor respeitoso para com esse mundo externo. Já a primeira civilização com escrita, os sumérios, registraram um mito onde sua divindade protetora derrotou o espírito guardião de uma floresta para os humanos livremente cortarem ela, isso dois mil anos antes dos germânicos surgirem enquanto povo. Não à toa, os sumérios também foram a primeira civilização extinta, pois transformaram o fértil delta de rio, do qual dependiam, num enorme pântano insalubre.

Mas nós não temos porque temer a anarquia da natureza, pois migrando de colapso em colapso, a civilização já sobrepujou ela totalmente. E esse é o grande ponto, hoje é o mundo externo aos humanos que se limita a pequenos cercados, onde fingimos que permitimos a natureza seguir sua anarquia. Nós, enquanto humanidade, somos totalmente responsáveis por isso. Então o que podemos fazer, para trazer a anarquia a nossas vidas e libertar a anarquia da natureza?

A sociedade anarquista permanente é a organização social onde nenhuma pessoa explora nem oprime outra por não possuir os meios pelos quais fazer isso. Tal sociedade é pensada para que esses meios não ressurjam. Ela é ativamente libertária e consciente da necessidade da manutenção disso. Daí resulta que essa sociedade mantenha a autonomia de suas comunidades descentralizadas, onde a relação entre o ser humano e o meio ambiente seja uma preocupação constante; para que nem as futuras gerações, nem os vizinhos, sofram privações.

Seres humanos anarquistas devem obviamente se limitar. Não apenas para deixarem de dominar e explorar uns aos outros e a natureza, mas principalmente, desfrutar de um mundo natural pleno, onde possamos recuperar aspectos fundamentais da relação dos humanos com seu meio, do qual nos afastamos ao custo do nosso próprio sofrimento.

Autolimitação não é nenhuma utopia, seres humanos em ilhas têm sido capazes de viver por milênios com populações estáveis. Também quando alcançamos os limites ecológicos em grandes regiões, isso resultou em autolimitação, vemos isso na Europa, China, Japão e Índia na antiguidade, idade média, e até recentemente. A autolimitação é uma forma de evitar consequências piores, como a degradação ambiental, que resulta em fome e guerras.

O capitalismo é contra a autolimitação, ele defende o crescimento ilimitado, e alimenta sonhos de milhões de pessoas, com feitos fantásticos, tal como sair daqui para colonizar o espaço, adquirir toda a energia do sol e nos tornarmos uma civilização galáctica. Naturalmente que nos rumos atuais o capitalismo irá colapsar o grande ecossistema da Terra antes de tal feito. Porém muitos anarquistas, sem falar dos socialistas, desejam isso, e isso é compreensível.

Se a humanidade irá fazer isso, se ela será capaz desse feito durante a sociedade anarquista permanente, não é algo que temos como prever, nem algo a ser demonizado. Porém sabemos que isso de forma alguma é uma vocação da humanidade. Nada estava dado que esse primata andante e falante iria dominar toda a biosfera e reduzir os animais não domesticados, hoje, a 4% da biomassa de animais sobre a Terra, enquanto apenas nossa espécie representa um terço disso, e o restante são nossas criações. E nada está dado que devemos seguir nesse caminho em vez de abandoná-lo.

É preciso ter coragem para se entregar à anarquia; é preciso anarquia nas nossas vidas para encontrarmos nosso próprio sentido em estarmos vivos; é preciso ser anarquista para reconhecer que o destino que nos é imposto no passado não é o destino a que estamos fadados.

Se a anarquia não existisse fora das concepções humanas, ela seria utopia!