Título: Crítica dos Ideais Revolucionários
Data: 1848
Fonte: De la methode mixte, La Phalange, VII, 1848.
Notas: Fonte: Extraído e traduzido de The Utopian Vision of Charles Fourier. Selected Texts on Work, Love, and Passionate Attraction. Publicado por Jonathan Cape, 1972. A introdução é inspirada num autor anônimo da Protopia.

Uma breve introdução: Este texto apresenta uma crítica aos ideais da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade - escrita por François Marie Charles Fourier (1772 – 1837), um socialista experimental francês (chamado de socialista utópico pelo jargão marxista). Fourier foi um crítico ferino do economicismo e do capitalismo, e adversário da industrialização, da civilização urbana, do liberalismo e da família baseada no matrimônio e na monogamia. Ele é citado como referência por anarquistas como Pierre-Joseph Proudhon, Joseph Déjacque, Peter Kropotkin, Émile Armand, Paul Goodman, Bob Black, Hakim Bey, pelo antifascista André Breton e por Karl Marx, e serviu de inspiração para o Falanstério do Saí em Santa Catarina e para a Colônia Cecília no Paraná, entre outros.

O caráter jovial com que Fourier realizou algumas de suas críticas fez dele um dos grandes satíricos de todos os tempos. No entanto, não ficou apenas na crítica, assumiu um caráter propositivo. Sugeriu a criação de unidades de produção e consumo - as falanges ou falanstérios - baseadas em uma forma de cooperativismo integral e auto-suficiente, assim como na livre perseguição do que chamava paixões individuais e seu desenvolvimento, o que constituiria um estado que chamava harmonia. Neste sentido antecipa a linhagem do socialismo libertário dentro do movimento socialista, mas também em linhas críticas da moral burguesa e cristã, restritiva do desejo e do prazer. Em 1808 Fourier já argumentava abertamente em favor da igualdade de gênero entre homens e mulheres, apesar da palavra feminismo só ter surgido em 1837.

Crítica dos Ideais Revolucionários

A filosofia estava certa em alardear a liberdade; é o principal desejo de todas as criaturas. Mas a filosofia esqueceu que, nas sociedades civilizadas, a liberdade é ilusória se as pessoas comuns não possuem riqueza. Quando as classes assalariadas são pobres, sua independência é tão frágil quanto uma casa sem fundações. O homem livre que carece de riqueza imediatamente mergulha sob o jugo dos ricos. O escravo recém-libertado se assusta com a necessidade de prover sua própria subsistência e se apressa em se vender de volta à escravidão, a fim de escapar dessa nova ansiedade que paira sobre ele como a espada de Dâmocles. Ao dar-lhe liberdade sem riqueza, você simplesmente substitui seu tormento físico por um tormento mental. Ele acha a vida pesada em seu novo estado... Assim, quando você dá liberdade ao povo, ele deve ser reforçado por dois suportes que são a garantia de conforto e atração industrial...

Igualdade de direitos é outra quimera, louvável quando considerada abstrata e ridícula do ponto de vista dos meios empregados para introduzi-la na civilização. O primeiro direito dos homens é o direito ao trabalho e o direito ao mínimo. Isto é precisamente o que não foi reconhecido em todas as constituições. Sua principal preocupação é com indivíduos privilegiados que não estão necessitando de trabalho. Eles começam com listas pomposas dos eleitos de famílias privilegiadas para as quais a lei garante uma renda de cinquenta ou cem mil francos para a simples tarefa de governar o povo ou sentar em um assento estofado e votar com a maioria em um senado. Se a primeira página das constituições serve para dar aos administradores garantias de afluência e ociosidade, seria bom que a segunda página prestasse atenção ao lote das classes mais baixas, ao mínimo proporcional e ao direito ao trabalho, que são omitido em todas as constituições, e ao direito ao prazer, que é garantido apenas pelo mecanismo da série industrial...

Vamos nos voltar para a fraternidade. Nossa discussão aqui será divertida, ao mesmo tempo repugnante e bem estudada. É divertido em vista da imbecilidade das teorias que pretendem estabelecer a fraternidade. É repugnante quando recordamos os horrores que o ideal de fraternidade mascarou. Mas é um problema que merece atenção especial da ciência; pois as sociedades atingirão seu objetivo, e o homem sua dignidade, somente quando a fraternidade universal se tornar um fato estabelecido. Por fraternidade universal queremos dizer um grau de intimidade geral que só pode ser realizado se quatro condições forem satisfeitas:

Conforto para o povo e a garantia de um mínimo esplêndido;

A educação e instrução das classes inferiores;

A verdade geral nas relações de trabalho.

A prestação de serviços recíprocos por classes desiguais.

Uma vez satisfeitas estas quatro condições, os ricos Mondor terão relações verdadeiramente fraternas com Irus que, apesar de sua pobreza, não terão necessidade de um protetor nem motivação para enganar a ninguém, e cuja boa educação lhe permitirá associar-se aos príncipes... Quanto ao presente, como poderia haver por alguma fraternidade entre sibaritas impregnados de refinamentos e nossos camponeses rudes e famintos, cobertos de farrapos e muitas vezes de insetos e portadores de doenças contagiosas como o tifo, a sarna, a plica e outros frutos da pobreza civilizada? Que tipo de fraternidade poderia ser estabelecida entre essas classes heterogêneas de homens?