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Veganarquismo 2ª Edição Libertação Animal e Revolução Social: Uma perspectiva vegana do anarquismo ou uma perspectiva anarquista do veganismo Brian A. Dominick

Animal Liberation and Social Revolution Brian A. Dominick, Critical Mass Media, 1995.

Nova tradução do original em inglês por Chuy, revisão e reescrita desmarcando o gênero binário Claudia Mayer. Capa e diagramação por Baderna James.

Editora Monstro dos Mares
Ponta Grossa (PR)
Janeiro de 2019
www.monstrodosmares.com.br

Introdução: Veganarquistas

Já há algum tempo, a libertação animal e ativistas que lutam por essa causa se envolveram em discursos e ações acaloradas. Embora a teoria e o ativismo da libertação animal tenham sido raramente bem-vindos ou levados a sério pela esquerda dominante, grande quantidade de anarquistas está começando a reconhecer sua legitimidade, não apena como uma causa válida, mas como aspecto integral e indispensável da teoria radical e da prática revolucionária. Enquanto a maioria das pessoas que se declara anarquista não adotou a libertação animal e seu estilo de vida correspondente, o veganismo, um número crescente de jovens anarquistas está adotando posturas inclusivas em relação à ecologia e aos animais como parte de suas práticas gerais.

Do mesmo modo, vegans e liberacionistas animais recebem a influência do pensamento anarquista e sua rica tradição. Isso fica evidente na hostilidade crescente entre ativistas da libertação animal para com o sistema estatal, capitalista, sexista, racista e etarista, que vem intensificando sua guerra não apenas contra animais não-humanos, mas também contra os seres humanos que os defendem. Essa comunidade relativamente nova de liberacionistas animais está rapidamente se tornando cada vez mais consciente da totalidade da força que alimenta a máquina especista que é a sociedade moderna. À medida que tal conscientização aumenta, também deveria aumentar a afinidade entre liberacionistas animais e os grupos anarquistas, mais socialmente orientados.

Quanto mais reconhecermos a comunalidade e a interdependência de nossas lutas, que no passado consideramos bastante distintas umas das outras, mais compreendemos o que a liberação e a revolução realmente significam.

Além de nossa visão ampla, anarquistas e liberacionistas animais compartilham sua metodologia estratégica. Sem pretender falar por todos os grupos, direi que quem considero anarquistas e liberacionistas animais de verdade buscam realizar nossas visões através de quaisquer meios eficazes. Compreendemos, ao contrário da visão hegemônica estabelecida sobre nós, que a destruição e violência sem sentido não nos trará o fim que desejamos. Porém, diferente de liberais e progressistas, cujos objetivos se limitam a reformas, nós nos preparamos para admitir que a mudança real acontecerá apenas se adicionarmos força destrutiva à nossa transformação criativa da sociedade opressora. Podemos construir tudo o que quisermos, e devemos demonstrar proatividade sempre que possível. Mas também entendemos que podemos criar espaços para criação livre somente através da obliteração daquilo que existe para impedir nossa liberação.

Eu sou vegan porque tenho compaixão pelos animais; eu os vejo como seres que têm valor, não diferente dos seres humanos. Eu sou anarquista porque tenho a mesma compaixão por seres humanos, e porque eu me recuso a aceitar perspectivas comprometidas, estratégias incompetentes e objetivos vendidos. Como radical, minha abordagem à liberação animal e humana não tem comprometimentos: liberdade total ou então…

Neste ensaio, quero demonstrar que qualquer abordagem da mudança social deve ser composta por uma compreensão não apenas das relações sociais, mas também das relações entre animais e natureza, incluindo animais não-humanos. Eu também espero demonstrar por que nenhuma abordagem da liberação animal é possível sem compreendermos profundamente a empreitada revolucionária social. Devemos nos transformar, se me permitem colocar assim, em “veganarquistas”.

O que é a revolução social?

“Revolução” é uma dessas palavras cujo significado varia muito conforme quem a utiliza. De fato, é provavelmente seguro dizer que não há duas pessoas que compartilhem a mesma ideia do que “revolução” realmente é. Isto, para mim, é o que torna a revolução verdadeiramente bela.

Quando falo de revolução, me refiro a uma dramática transformação social. Mas minha revolução não é definida por mudanças objetivas no mundo a meu redor, como a derrubada do estado ou do capitalismo. Estes, a meu ver, são apenas sintomas. A revolução não pode ser encontrada fora de nós. Ela é totalmente interna, totalmente pessoal.

Cada pessoa tem uma perspectiva. Cada indivíduo vê o mundo de uma maneira diferente. A maioria das pessoas, entretanto, tem suas perspectivas moldadas para elas pela sociedade em que vivem. A vasta maioria de nós vê a si e ao mundo de maneiras condicionadas pelas instituições que gerenciam nossas vidas, como governo, família, casamento, igreja, corporações, escola, etc. Cada uma dessas instituições, em contrapartida, é geralmente o que eu chamo de Establishment – uma entidade que existe com o único propósito de perpetuar o poder de uma minoria relativa. Alimentada pela paixão da elite por mais e mais poder, o Establishment necessariamente tira seu poder do resto do mundo por meio da opressão.

O Establishment emprega muitas formas de opressão; a maior parte delas comumente reconhecidas mas raramente compreendidas, quem dirá enfrentadas. Primeiro, há o classismo, que é a opressão econômica; estadismo, ou a submissão das pessoas pela autoridade política; o sexismo e o homossexismo, opressão baseada na supremacia masculina heterossexual ou patriarcado; e o racismo, um termo geral para opressões fundadas no etnocentrismo. Além dessas opressões mais comumente reconhecidas, há o etarismo, a dominação dos adultos sobre crianças e jovens; e, finalmente, as opressões que resultam do antropocentrismo, mais especificamente o especismo e a destruição ambiental.

Por toda a história, o Establishment depende dessas dinâmicas opressivas, o que resultou no aumento e concentração de seu poder. Consequentemente, as formas de opressão se tornaram interdependentes. A infusão dessas diferentes dinâmicas de opressão serve para que se reforcem e complementem-se, tanto em versatilidade como em força.

Assim, a força por trás das instituições que nos constituíram socialmente é a mesma força por trás do racismo e do especismo, do sexismo e do classismo, e assim por diante. Seria razoável assumir, portanto, que a maior parte de nós, como produtos das instituições do Establishment, fomos socialmente constituídos para fomentar a opressão dentro e entre nós.

A revolução é o processo – não é um evento – de desafiar a sabedoria e os valores falsos que nos doutrinam e de desafiar as ações que aprendemos a realizar e não realizar. Somos nós o inimigo; derrubar a opressão em nossas mentes será a revolução – assistir à queda de seus constructos nas ruas será apenas um sinal (feliz!) de que estamos nos revoltando em conjunto, de maneira unificada e irrestrita. A revolução social é uma coleção de processos internos. A mudança social radical das condições objetivas do contexto em que vivemos pode acontecer tão somente como resultado de tal revolução.

Veganismo Radical

Mais duas palavras cujos significados são frequentemente mal interpretados são “radicalismo” e “veganismo”. A cooptação desses termos por liberais míopes e egocêntricos eliminou a potência originalmente outorgada a eles. Novamente sem reivindicar um monopólio de definições “verdadeiras”, ofereço meus significados pessoais desses termos.

Radicalismo e extremismo não são, de forma alguma, sinônimos, ao contrário do que popularmente se acredita. A palavra “radical” é derivada da raiz Latina “rad”, que significa justamente “raiz”. Radicalismo não é uma medida do grau de fanatismo ideológico, à direita ou à esquerda; ao invés disso, a palavra descreve um estilo de abordagem dos problemas sociais. Radical, literalmente falando, é alguém que busca a raiz de um problema a fim de atacá-lo para encontrar uma solução.

Radicais não limitam seus objetivos a reformas. Seu negócio não é fazer concessões a quem vitimiza para aliviar a miséria que resulta da opressão. Essas são tarefas geralmente deixadas para liberais e progressistas. Ao mesmo tempo em que há, frequentemente, ganhos resultantes de reformas, para quem é radical, nada além da vitória é um fim satisfatório – um fim definido como uma mudança revolucionária nas raízes da opressão.

Pela minha definição, vegetarianismo puro não é veganismo. Recusar-se a consumir produtos de animais não-humanos, mesmo sendo uma escolha de vida maravilhosa, não é, em si mesma, veganismo. Vegans baseiam suas escolhas numa compreensão radical do que realmente é a opressão animal, e sua escolha de estilo de vida é altamente informada e politizada.

Por exemplo, não é incomum pessoas que se autoproclamam vegans justificarem seu consumo despreocupado de produtos de grandes corporações dizendo que animais são indefesos e seres humanos não. Muitas pessoas adeptas do vegetarianismo não conseguem perceber a validade das causas da liberação humana, ou as veem como tendo importância secundária àquelas dos animais que não podem defender-se por si mesmos. Tal forma de pensar expõe a ignorância vegetariana liberal não apenas acerca da opressão humana, mas da conexão profunda entre o sistema capitalista e as indústrias de opressão animal.

Muitas pessoas que se autodenominam vegans e ativistas dos direitos animais, em minha experiência, têm pouco ou nenhum conhecimento sobre ciências sociais; com frequência, o que “sabem” sobre as conexões entre a sociedade e a natureza não-humana é cheia de erros. Por exemplo, não é incomum ouvir vegans argumentando que é o consumo de animais a causa da fome no mundo. Afinal, mais de 80% dos grãos colhidos nos EUA são usados como alimento para gado, e esses grãos seriam mais que suficientes para alimentar quem sofre com a fome no planeta. Parece lógico concluir, portanto, que o fim do consumo de produtos animais por seres humanos nos Estados Unidos teria como consequência a alimentação das pessoas famintas em outros lugares. O guru vegan John Robbins parece sustentar essa crença.

Mas ela é completamente falsa! Se as pessoas nos Estados Unidos parassem de comer carne no próximo ano, é pouco provável que uma única pessoa faminta no mundo seja alimentada pelos recém-libertos grãos colhidos no solo estadunidense. Isso acontece porque o problema da fome mundial, assim como o da “superpopulação”, não é nada do que parece. Esses problemas têm suas raízes não na disponibilidade de recursos, mas na alocação de recursos. As elites requerem a escassez – uma oferta de recursos altamente restrita – por duas grandes razões. Primeiro, o valor de mercado dos produtos caem decisivamente com o aumento da demanda. Se os grãos agora dados ao gado se ficassem disponíveis repentinamente, a mudança jogaria o valor dos grãos no chão, acabando com a margem de lucro. As elites com investimentos no mercado da agricultura de grãos, portanto, têm interesses diretamente correspondentes àqueles das elites que possuem parte do mercado de agricultura animal. Vegetarianos tendem a pensar que fazendas de vegetais e grãos são boas, enquanto aquelas envolvidas em criação de gado são más. O fato é, entretanto, que os vegetais são commodities, e quem tem interesse financeiro na indústria vegetal não quer disponibilizar seus produtos se isso significa produzir mais para ter ainda menos lucro.

Segundo, a distribuição nacional e global de alimentos é uma ferramenta política. Governos e organizações econômicas internacionais manipulam cuidadosamente suprimentos de comida e água para controlar populações inteiras. Às vezes, a comida pode ser negada a pessoas famintas a fim de mantê-las fracas e dóceis. Outras vezes, a provisão de comida é parte de uma estratégia para acalmar populações inquietas à beira da revolta.

Sabendo de tudo isso, parece razoável assumir que o governo dos Estados Unidos, tão estreitamente controlado por interesses privados, subsidiaria a não-produção de grãos, a fim de “salvar a indústria do colapso”. Pessoas que trabalham na agricultura seriam, possivelmente, pagas para não produzir grãos, ou até mesmo para destruir suas plantações.

Não é suficiente boicotar a indústria da carne e esperar que os recursos sejam realocados a fim de alimentar quem tem fome. Devemos estabelecer um sistema que realmente tenha a intenção de atender às necessidades humanas, o que implica em uma revolução social.

Essa é apenas uma das muitas conexões entre a exploração animal e humana, mas ilustra bem a necessidade de uma revolução total. Uma revolução no relacionamento entre seres humanos e animais tem um alcance limitado e é, de fato, impossibilitada pela própria natureza da sociedade moderna. Uma das razões pelas quais animais são explorados, em primeiro lugar, é porque seu abuso é lucrativo. Vegetarianos tendem a entender até aí. Mas a indústria da carne (incluindo laticínios, vivisseção, etc.) não é uma entidade isolada. A indústria da carne não será destruída até que o capitalismo de mercado seja destruído, pois é este último que fornece ímpeto e iniciativa para tal indústria. E, para capitalistas, o prospecto de lucros fáceis através da exploração animal é irresistível.

O lucro não é o único fator social que encoraja a exploração animal De fato, a economia é uma forma de relação social Nós também temos relações políticas, culturais e interpessoais, e cada uma delas influencia a percepção de que animais existem para uso humano.

A Bíblia Cristã, e as religiões Ocidentais em geral, são cheias de referência ao suposto “direito divino” dos seres humanos para usar nossos semelhantes não-humanos para suprir suas próprias necessidades. Neste momento na história, é absurdo para qualquer pessoa até mesmo pensar que seres humanos precisam explorar animais. Há pouco a se ganhar através do sofrimento dos animais não-humanos. Mas Deus supostamente disse que podemos usá-los, então continuamos a fazê-lo apesar de já não termos necessidade real disso.

Praticantes da vivissecção dizem que podemos aprender através dos animais não-humanos, utilizando-se dessa afirmação para justificar a tortura e assassinato de seres sensíveis. Radicais precisam perceber, como fazem vegans, que a única coisa que podemos aprender através dos animais é como viver um relacionamento sensato e saudável com nosso meio ambiente. Nós precisamos observar os animais em seus ambientes naturais, e imitar suas relações ambientais quando adequado, em nosso próprio ambiente. Tal compreensão da harmonia entre seres humanos e natureza um dia salvará e valorizará mais vidas do que jamais permitirá a busca pela cura do câncer através da “ciência” da tortura animal. Afinal, a raiz da maior parte dos tipos de câncer em seres humanos é o maltrato à natureza. Nenhuma pessoa radical esperaria que a solução para tal problema fosse encontrada em mais destruição da natureza por meio da experimentação em animais.

As ligações entre especismo e racismo – entre o tratamento dos animais e de pessoas de cor – também foi explicitamente (e graficamente) demonstrada. Em seu livro, The Dreaded Comparison: Human and Animal Slavery, Marjorie Spiegel astutamente compra o tratamento dado aos animais por seres humanos e o tratamento dado às “raças inferiores” por pessoas brancas, argumentando que “ambos os tratamentos são construídos em torno da mesma relação básica – aquela entre opressor e oprimido”. Como ilustra Spiegel, o tratamento de pessoas não-brancas por pessoas brancas é, historicamente, assustadoramente parecida com o tratamento dispensado aos seres não-humanos pelos seres humanos. Decidir que uma opressão é válida e outra não é conscientemente limitar a compreensão de alguém sobre o mundo; é engajar-se em ignorância voluntária, muito frequentemente por conveniência pessoal. “Uma causa por vez”, diz o pensamento monista, como se essas dinâmicas inter-relacionadas pudessem ser esterilizadas e extraídas da relação que existe entre elas.

A dominação masculina na forma de patriarcado e o especismo produto do antropocentrismo foi exposto com percepção poética por Carol Adams em seu livro The Sexual Politics of Meat. O feminismo e o veganismo têm muito em comum, e ambos têm muito que aprender um com o ouro. Depois de estabelecer comparações concretas entre a perspectiva patriarcal e o tratamento dado aos animais, Adams descreve e clama pelo reconhecimento da conexão profunda entre os estilos de vida vegan e feminista.

Uma comparação entre relações interpessoais e relações humano-animal que não foi vastamente examinada, que eu saiba, inclui o tratamento dado por pessoas adultas a crianças e jovens, assim como o tratamento dado por pessoas adultas às pessoas idosas. Em cada caso, os alvos de opressão são vistos como não tendo agência completa sobre suas ações. Por exemplo, crianças e pessoas idosas são vistas como frágeis e incompetentes (apesar de seu real potencial para a responsabilidade). O etarismo é fundamentado em algo que chamo adultocracia, que se refere à noção de que a fase adulta possui certo tipo de responsabilidade que não pode ser encontrada em quem envelheceu ou ainda é jovem. Como os animais, trata-se os grupos oprimidos pelo etarismo como objetos desprovidos de caráter e valor individuais. Tais grupos são explorados sempre que possível, mimados quando considerados “fofos”, mas é dado a eles o mesmo respeito conferido a seres humanos adultos. Que crianças, pessoas idosas e animais são seres vivos, pensantes e sentientes se perde, de alguma forma, na busca adulta por dominância e poder. Não diferente do patriarcado, a adultocracia não requer uma hierarquia formal: ela reafirma sua dominância convencendo suas vítimas que elas são realmente menos válidas que as forças opressoras adultas. Seres não-humanos também podem ser facilmente invalidados. Simplesmente privá-los de qualquer liberdade para desenvolver caráter individual é um passo para isso.

Não há dúvida de que o estado está do lado de quem explora os animais. Com poucas exceções, a lei é decididamente anti-animal. Isso pode ser visto na quantidade de subsídios dados pelo governo às indústrias da carne e laticínios, vivissecção e para o uso militar de seres não-humanos, e pela sua oposição àqueles que resistem à indústria da exploração animal. O político nunca irá entender por que o estado deveria proteger os animais. Afinal, cada esfera da vida social condena e encoraja o abuso. Atuar pelos “interesses” de círculos eleitorais (humanos), por mais absurdo que pareça, sempre se traduzirá em agir contra os interesses do reino animal, um conjunto vasto que ainda não obteve o direito de votar.

Mas, perguntam-se anarquistas, se cada animal tivesse direito ao voto e reafirmasse sua necessidade de proteção através dele, teríamos uma sociedade melhor? Isto é, nós queremos realmente que o estado se interponha entre os seres humanos e os animais, ou seria melhor eliminar a necessidade dessa barreira? Muitas pessoas concordariam que a melhor opção seria os seres humanos se posicionarem contra o consumo de animais, a não ser que sejam coagidos a consumi-los. Afinal, se a Proibição do álcool causou mesmo aquela quantidade de crime e violência, imagine o conflito social que uma proibição da carne iria causar! Da mesma forma como a Guerra às Drogas nunca chegará a tocar os problemas causados pela dependência química e seu correspondente “submundo”, nenhuma Guerra à Carne ajudaria a acabar com a exploração animal; isso causaria ainda mais problemas. As raízes desse tipo de problema estão em desejos socialmente criados e reforçados de produzir e consumir aquilo de que não precisamos realmente. Tudo sobre nossa sociedade atual nos diz que “precisamos” de drogas e carne. Precisamos mesmo é destruir essa sociedade!

Vegans devem ir além de uma compreensão monista da opressão de seres não humanos e compreender suas raízes nas relações sociais humanas. Além disso, vegans também devem estender seu estilo de vida de resistência para uma resistência à opressão humana.

Violência na vida diária

Nossa sociedade, poucos discordariam, baseia-se em grande parte na violência. Parece que há violência aonde quer que nos voltemos, uma percepção aumentada exponencialmente pelas imagens dos meios de comunicação controlados pelas corporações.

Essa violência, que faz parte de nossa cultura e existência, sem dúvida nos influencia profundamente, a um ponto tal que dificilmente poderá ser compreendido um dia. Quem está do lado que sofre violência naturalmente passa por severas perdas de poder. Sendo o poder um conceito social, como pessoas não compreendemos necessariamente o que ele significa para nós. Quando percebemos uma perda de poder, uma de nossas reações típicas é reafirmar o pouco poder que nos restou. Uma vez que tenhamos internalizado os efeitos da opressão, carregamo-los conosco, frequentemente apenas para vitimizar a outrem. É uma verdade infeliz que vítimas usualmente se tornam perpetrantes especificamente porque são vitimadas. Quando a vitimização toma a forma de violência física, comumente se traduz em mais violência.

Com isso em mente, podemos perceber nitidamente por que o abuso dos animais – seja diretamente, como no caso de maus-tratos a animais de estimação, ou indiretamente, como no processo de comer carne – relaciona-se com a violência social. Seres humanos maltratados tendem a maltratar outros seres, e os animais estão entre as vítimas mais fáceis e indefesas. Isso expõe mais uma razão porque a opressão social deve ser combatida por quem se preocupa com o bem-estar dos animais.

Além disso, essa dinâmica de causa-efeito funciona nas duas direções. Já foi demonstrado que quem pratica violência contra os animais – mais uma vez, direta ou indiretamente – tem mais chances de praticar violência contra outros seres humanos. Pessoas que adotam uma dieta vegetariana, por exemplo, são tipicamente menos violentas que aquelas que comem carne. Pessoas que abusam de seus animais de estimação tendem a não parar por aí – sua prole e cônjuges são com frequência as próximas vítimas.

É absurdo pensar que uma sociedade que oprime animais não-humanos será capaz de se tornar uma sociedade que não oprime seres humanos. Reconhecer a opressão animal, portanto, torna-se um pré-requisito para a mudança social radical.

Alienação na vida diária

Na raiz da opressão, diz a argumentação radical, está a alienação. Seres humanos são criaturas sociais. Somos capazes de sentir compaixão. Somos capazes de entender que há um bem-estar social, um bem comum. Porque podemos sentir empatia por outros seres, quem quer nos colocar em conflito entre sociedades, comunidades e indivíduos, ou seres humanos contra a natureza, precisa nos alienar dos efeitos de nossas ações. É difícil convencer um ser humano a causar sofrimento a outro. É também difícil convencer um ser humano a machucar um animal não-humano sem razão, ou diretamente contribuir para a destruição de seu próprio meio ambiente.

Quando uma sociedade entra em guerra com outra, é imperativo que os líderes de cada sociedade convençam “as massas” que a população adversária é vil e inumana. Depois, líderes precisam esconder das pessoas os resultados reais da guerra: violência em massa, destruição e derramamento de sangue. A guerra é algo que acontece em outro lugar, dizem-nos, e as criaturas “estrangeiras” que morrem assim o merecem.

Dinâmicas opressivas nas relações sociais são sempre baseadas numa dicotomia nós/outrem, sendo o grupo opressor evidentemente distinto do grupo oprimido. Para o grupo opressor, o “nós” é supremo e privilegiado. Quem acumula riqueza “compreende” que suas fortunas são adquiridas através de métodos “honestos” e “justos”. Por exemplo, ambos os grupos opressores e oprimidos são levados a acreditar que é a falta de habilidade e incompetência das pessoas pobres que as mantém assim. Não se reconhece o fato de que o privilégio econômico dá início à desigualdade automaticamente. Não há como contornar a situação quando alguns grupos têm a permissão de pegar mais do que sua parte justa. Mas quem tem privilégios aliena-se dessa verdade. Tais pessoas precisam ser assim, ou então não seriam capazes de justificar a desigualdade com a qual contribuem.

Isso vale para qualquer tipo de dinâmica opressiva. Tem que valer.

Vegans compreendem que a exploração e o consumo de animais por seres humanos são facilitados pela alienação. As pessoas não seriam capazes de viver da maneira que vivem – isto é, à custa do sofrimento dos animais – se compreendessem os efeitos reais desse consumo. Isso explica precisamente por que o capitalismo tardio retirou completamente quem consome do processo de produção. A tortura acontece em outro lugar, atrás de portas (bem) fechadas. Ao permitir que seres humanos criem empatia com as vítimas da opressão especista, não seriam capazes de continuar suas vidas como o fazem no presente.

Os seres humanos precisam ser alienados até mesmo da racionalidade simples do veganismo. Para manter a dicotomia nós/outrem entre os seres humanos e os “animais” (como se nós não fôssemos também animais!), não podemos ouvir os argumentos básicos a favor da transcendência dessa falsa dicotomia.

Ouvimos que seres humanos podem utilizar linguística complexa e modos intrincados de raciocínio. Animais não-humanos não podem. Seres humanos são pessoas, os outros são, no máximo, bestas. Animais são constituídos como menos que seres humanos não pela natureza, mas por ativa desumanização, um processo pelo qual pessoas tiram conscientemente o valor dos animais. Afinal, a incapacidade de falar ou raciocinar de maneira “iluminada” não sujeita crianças ou pessoas com deficiência mental severa à violência que milhões de animais não-humanos sofrem todos os dias.

Encaremos, a dicotomia entre o ser humano e o animal é mais arbitrária que científica. Não é diferente da colocada entre pessoas “brancas” e “negras”, ou “vermelhas”, ou “amarelas”; entre pessoas adultas e crianças; entre homens e mulheres; heterossexuais e homossexuais; habitantes locais ou estrangeiros. Linhas são desenhadas sem cuidado, mas com intenções tortuosas, e as instituições que nos constroem nos levam a acreditar que estamos em um dos lados da linha, e que a linha é, desde o princípio, racional.

Na vida diária, nos alienam dos resultados de nossas ações mais básicas. Quando compramos um produto alimentício no mercado, podemos ler a lista de ingredientes e, frequentemente, saber se animais foram assassinados e/ou torturados no processo de produção. Mas o que ficamos sabendo sobre as pessoas que fizeram aquele produto? As mulheres receberam menos que os homens? As pessoas negras foram subjugadas pelas brancas no chão da fábrica? Sindicatos ou esforços de coletivização trabalhista foram destruídos? Houve uma chacina durante protestos exigindo salários dignos?

Quando eu, sendo homem, converso com uma mulher, ou com alguém mais jovem que eu, sou dominador e autoritário como fui condicionado a ser pela sociedade patriarcal? Eu, como uma pessoa branca, vejo a mim mesmo (ainda que subconscientemente) como “superior” ao povo negro? De fato, olho para as pessoas de cor como sendo, de alguma forma, inerentemente diferentes de mim? Essas são as perguntas que nos encorajam a fazer. Mas precisamos fazê-las. Para superar a alienação, precisamos praticar a crítica diligentemente, não apenas acerca do mundo à nossa volta, mas acerca de nossas próprias ideias, perspectivas e ações. Se queremos extinguir a opressão de nossas mentes, devemos constantemente questionar nossas crenças e pressupostos. Quais, devemos nos perguntar como indivíduos, são os efeitos de minhas ações, não apenas sobre quem está à minha volta, mas também sobre o meio ambiente?

Por ser um componente chave da perpetuação da opressão, toda alienação deve ser destruída. Enquanto pudermos ignorar o sofrimento no matadouro e no laboratório de vivisecção, somos capazes de ignorar as condições das áreas rurais do Terceiro Mundo, o gueto urbano, o lar abusivo, a sala de aula autoritária, e assim por diante. A capacidade de ignorar quaisquer opressões é a habilidade de ignorar quaisquer outras opressões.

Ação revolucionária

Compreender-nos e nosso relacionamento com o mundo que nos rodeia é apenas o primeiro passo para a revolução. Precisamos, então, aplicar nossos conhecimentos em um programa de ação prática. Quando falo de ação, não me refiro apenas a eventos semanais ou mensais quando nós, em colaboração com um grupo organizado, afirmamos nossas crenças em um protesto, ou quando executamos um ataque planejado a um local de opressão.

A possibilidade de ação não é assim tão limitada. Ela pode ser encontrada em nosso dia a dia, em nossas rotinas, ou em atividades não tão rotineiras. Quando afirmamos nossas crenças ao fazer denúncias em conversas, no trabalho, na mesa de jantar, nós estamos agindo. De fato, sabendo disso ou não, tudo o que fazemos é uma ação ou uma série de ações. Reconhecer isso nos permite transformar nossa vida diária; de repressão e alienação, a liberação e revolução.

O papel de quem faz a revolução é simples: fazer de sua vida um modelo em miniatura da sociedade alternativa e revolucionária que deseja. Você é um microcosmo do mundo ao seu redor, e até mesmo a mais básica de suas ações afeta o contexto social do qual você é parte. Faça com que esses efeitos sejam positivos e radicais em sua natureza.

A revolução deve fazer parte de nosso estilo de vida, guiado pela imaginação e alimentado pela compaixão. Cada pensamento que temos, cada palavra que dizemos, cada ação que realizamos deve estar enraizada na prática radical. Devemos liberar nossos desejos através da crítica constante daquilo que aprendemos a pensar, e através de uma busca persistente pelo que realmente queremos. Uma vez que nossos desejos são conhecidos, devemos agir em seu interesse.

Depois de identificar como nossa sociedade funciona e decidir o que queremos, devemos começar a desmantelar o presente e montar o futuro – e devemos realizar tais tarefas simultaneamente. À medida que destruímos os vestígios da opressão, devemos criar, com foco e espontaneidade, novas formas de relacionamentos sociais e ambientais, facilitados por instituições frescas e novas.

Por exemplo, economicamente falando, onde há propriedade privada hoje, haverá propriedade social amanhã. Onde produção, consumo e alocação de recursos forem agora ditadas pelas forças irracionais do mercado, no futuro deve haver um sistema racional para a aquisição e distribuição de bens materiais e serviços, com foco na equidade, diversidade, solidariedade, autonomia, e/ou o quaisquer que sejam os valores que guiam nossas visões.

De maneira visionária, vegans imaginam o mundo livre da exploração animal. Além disso, veem um relacionamento verdadeiramente pacífico e saudável entre a sociedade humana e o meio ambiente. O movimento pela ecologia profunda nos mostrou que a natureza não-animal tem valores que não podem ser quantificamos em termos econômicos, tal como vegans demonstraram o valor dos animais não-humanos, um valor que não pode ser calculado por economistas, apenas medido pela compaixão humana. Essa compaixão, demonstrada para com o proletariado por socialistas, mulheres e queers pelo feminismo, pessoas de cor e etnias marginalizadas por intercomunalistas, para e pessoas idosas por juvenistas, e para com quem está na mira da bala do Estado pelo libertarianismo, é a mesma compaixão sentida por vegans e ambientalistas radicais – e incorporar suas ideologias em uma só teoria, visão, estratégia e prática holística – é uma verdade que não podemos mais ignorar. Apenas uma perspectiva e um estilo de vida baseado na compaixão real podem destruir os constructos opressivos da sociedade atual e começar do zero a criar relacionamentos e realidades desejáveis. Isto é, para mim, a essência da anarquia. Quem falha em abraçar todas as lutas contra a opressão como sua própria luta não se enquadra em minha definição de anarquista. Isso pode parecer muito, mas nunca vou deixar de pedi-lo a cada ser humano.

Agradecimentos

Este livro foi criado utilizando sistema operacional Linux, em distribuição gratuita Ubuntu (versão 18.04). – Texto tradado e diagramado no LibreOffice (versão 6.1) utilizando fontes de código fonte aberto do tipo OpenType Font. Kolar e Liberation Serif, disponíveis gratuitamente em fontlibrary.org – Muito obrigado!

Informações sobre Veganismo: